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''Aprendi que não posso exigir o amor de ninguém,
posso apenas dar boas razões para que gostem de mim,
e ter paciência para que a vida faça o resto.''
(William Shakespeare)

29.8.13

[Conto] Lição aprendida de um jeito bizarro.

    Estava sentada no banco caindo aos pedaços do ônibus. Essa tem sido minha rotina desde que mudei de escola; acordar às 4 da madrugada, arrumar-me as pressas e correr porta a fora pro ponto de ônibus perto de casa. Pegava sempre o mesmo ônibus, na ida e na volta. Assim que passava pelas duas portas o motorista já sorria alegremente para mim, devolvia o sorriso com tamanha gentileza. Passava pela catraca e sentava sempre no banco perto da porta, ao lado das janelas. Gostava de olhar para fora, viajar na música que era reproduzida nos meus fones de ouvido e pensar nas coisas. Ver a paisagem se movendo rapidamente do lado oposto da janela era cômico e fascinante, parecia que a vida seguia seu curso mais rápido, o tempo passava mais depressa. O ônibus aquela hora da tarde sempre estava vazio, com as mesmas pessoas, os mesmos rostos, as mesmas histórias. Nunca dei tanta importância em saber nada sobre essas pessoas. Conhecia seus rostos, mas nunca corri atrás para saber a história dessas pessoas. Gostava de imaginar a rotina diária delas, suas vidas. Acabava dando risada comigo mesma com as coisas estúpidas que chegava a pensar. Sentia que conhecia aquelas pessoas, mas não sabia, nem ao menos, seus nomes. O lugar ao meu lado sempre ficava vazio, geralmente colocava minha mochila ali. Minha viagem era tranquila.
    Desci, o ônibus continuou seu curso e fui para a minha casa.
    No tarde seguinte, ao passar pela catraca e olhar o banco habitual, surpreendi-me. Havia uma pessoa sentada, um garoto. Seus cabelos castanhos claros desgrenhados completava perfeitamente sua pele clara de vampiro. Seus olhos eram escuros como à noite. Não lembrava desse garoto, talvez fosse só hoje. Caminhei normalmente até o banco, pedi licença e sentei-me. Não conseguia viajar completamente nas coisas, o garoto me distraia. A música já não era mais suficiente, a paisagem já não me distraia. Peguei-me imaginando a vida do garoto, o que ele fazia? Qual era seu hobby? Seus amigos eram bons com ele? Qual era seu nome? João? Vitor? Pedro? Várias perguntas me passavam a mente. Olhei de canto para ele, seus olhos estavam vidrados em algo para fora da janela, não sabia bem o que era, poderia ser qualquer coisa. Ele se virou para me olhar, mas desviei os olhos, fingindo que não estava o olhando. Senti uma imensa vontade de falar com ele, mas era covarde, optei por simplesmente deixá-lo de lado. Convencendo-me a todo instante de que era somente aquele dia e depois, provavelmente, nunca mais o veria; a ideia me deixou triste. Balancei mínimamente minha cabeça, tentando afastar aqueles pensamentos. Esforcei-me ao máximo para me concentrar na música, seria melhor fazer isso do que pensar no garoto.
    Meu ponto de descida se aproximara e não queria descer do ônibus, mas tive. Se pudesse desceria depois dele, mas estava totalmente atarefada. Pedi licença novamente a ele, o mesmo sorriu para mim com gentileza.
- Obrigada.
  Fiquei em pé a frente da porta, esperando o ônibus parar e descer.
- Passe-me seu número, por favor? - Ele se virara no acento e falara comigo.
- Claro. Passe-me o seu também. - Sorri para ele, trocamos números e desejando que o pneu furasse e pudessemos conversar por mais tempo. Infelizmente isso não aconteceu, desci lentamente. Assim que a porta se fechou olhei para trás e lá estava ele, sorrindo lindamente.
    Estava com livros todos espalhados pelo chão da sala, a televisão estava ligada, passava o noticiário das 22:00h, mal prestava atenção no que diziam. As vozes que saíam da TV não eram nitídas. Assim que acabei a última lição, olhei para a tela luminosa e fiquei totalmente surpresa. O ônibus a qual eu sempre pegava havia batido de frente com um caminhão desgovernado assim que saíra do ponto onde eu descia, quase todos haviam morrido. Pensei em cada rosto familiar e arrependi-me profundamente de ter sito tão negligente com aquelas pessoas. Nunca ter me interessado em suas vidas. Nunca ter saído do meu mundinho e ir confirmar o que imaginava a respeito delas. Sentei no sofá totalmente abalada, não sabendo o que fazer ou pensar. Cada rosto passava rapidamente pela minha cabeça, igual a um filme que nunca nos cansamos de ver e colocamos para rodar assim que acabamos de assistir. O rosto do menino me veio a cabeça por último, será que ele sobreviveu ao terrível acidente? Provavelmente sim, ele estava no fundo do ônibus, agarrei-me a isso desesperadamente, desejando ser a pura verdade. As fotos dos mortos era exibida, descobri ali seus nomes e idades, algo que nunca tive sequer a coragem de perguntar com essas pessoas ainda em vida. Lágrimas escapavam dos meus olhos, arrependimento preenchia-me por completo e consternação estavam brigando por espaço.
     Ao tentar ir dormir, meus sonhos eram com eles. Sempre apontando o dedo na minha cara e dizendo para eu ter feito mais. Acordava a todo instante, com o rosto molhado e a culpa pesando na minha consciência. Eu mesma me culpava por isso tudo. Obviamente não poderia ter evitado o acidente. Fui a cozinha, beberiquei o copo d'água que havia enchido, mal conseguindo engolir o líquido. Minha boca estava seca e a garganta fechada. Sentia ódio de mim mesma. Despejei o que sobrou da água na pia e voltei pro meu quarto. Buscava desesperadamente um pouco de paz.
    Dias se passaram desde o acidente e aos poucos ia me recuperando da tragédia. O belo garoto havia sobrevivido ao acidente, mas estava no hospital. Visitei-o todos os dias. Tornamo-nos grandes amigos, melhores amigos e nunca nos separávamos. Um ônibus novo substituiu o antigo e conversava com todas as pessoas de lá.
    Aquele acidente me trouxe uma grande lição. Existem muitas pessoas boas, ótimas amigas. E talvez algumas que você pode deixar mais feliz, simplesmente mostrando que se importa com ela. Nada mais esquisito que fazer isso no transporte público. Tinha meus amigos do ônibus e nada mudaria isso. Deixei de ser negligente com as pessoas e comecei a fazer tudo o que me dava vontade, menos no impulso. Não perdi a oportunidade de conhecer pessoas bacanas como aquela que havia perdido.
    Passei pelas duas portas, sorri para o motorista gentilmente.
    - Oi galera. - Gritei para todos do ônibus.
    O motorista fechou as portas e seguimos nosso caminho.
    E eu sempre com um enorme sorriso no rosto, isso eu não conseguia tirar nunca.

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