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''Aprendi que não posso exigir o amor de ninguém,
posso apenas dar boas razões para que gostem de mim,
e ter paciência para que a vida faça o resto.''
(William Shakespeare)

18.10.13

{Conto} Senhor da Morte

      Era noite, a movimentação na rua era escassa. O céu ameaçava chorar, talvez não aguentando tanta coisa que via. Ultimamente, o céu tem sido mais forte que eu. Suportando com sucesso todo o sofrimento que vê e sente sem chorar e sempre sorrindo, não só com os lábios, mas também com os olhos; com sinceridade, não com falsidade e hipocrisia. Algo que não vemos com muita frequência nos dias atuais.
      Ao meu lado direito estava a rua pouco iluminada e vazia. Totalmente morta, como se vidas não tivessem passado ali. Simplesmente insignificante e nada. É incrível como as coisas mudam, de algo importante e cheio, vivo, rico vira simplesmente nada, algo sem vida, algo morto, sem respiração.
      Ao meu lado esquerdo estava uma floresta alta, e bem ao longe uma grande árvore. Como se fosse a árvore do mundo. Com gigantescos galhos e grandes folhas verdes, tão verdes que pareciam muito maduras, cairiam a qualquer momento. Deixando a grande árvore nua. Exposta para que quiser ver, ao frio e grandes tempestades que assombram nessa época do ano. Totalmente desprotegida. Uma criança que precisa de proteção.
      Meus pés pararam de repente. Impedindo-me de continuar meu caminho. Obrigando-me a olhar a grande árvore. Meus olhos presos como um peixe na boca de um urso.
      Um raio explodiu no céu ao longe. Ventos irados me atingiram em cheio. Meus enormes cabelos querendo desgrudar do meu couro cabeludo. Os fios chicoteavam meu rosto. As folhas no chão se espalharam sem rumo, chegando a invadir o asfalto esburacado. Urubus berravam com suas vozes enervantes; rondando a árvore desesperadamente. Um vazio preencheu o ambiente. A perdição caiu nesse lugar. Folhas pretas apareceram do nada e delas se formou uma figura sinistra. Uma silhueta toda encapuzada de preto surgira nos últimos galhos. Ele não tinha rosto, era tudo negro. Começou a olhar para mim. Estava totalmente inerte. Só conseguia olhar aquela criatura sobrenatural que me fitava descaradamente e cruelmente.
      - Seus amados serão os próximos. - disse com uma voz rouca, grossa e sem piedade.
      - O que quer dizer? - perguntei, tentei parecer firme, mas minha voz saiu como uma vítima perante a morte.
      - Seus amados serão os próximos. - voltou a repetir e logo em seguida começara a rir com total maldade.
      Em poucos instantes a figura se desfez do mesmo jeito que surgira. Só com uma diferença, um odor totalmente fétido ocupara o ar. Um cheiro de corpo em decomposição.
      Fiquei fitando por mais alguns instantes o que agora era nada.
      Continuei meu caminho. Não morava tão distante daquele lugar.
      A música explodia nos fones de ouvido. A figura sinistra não saia da minha cabeça. Sentia olhos em minhas costas, como se estivesse alguém atrás de mim. Seguindo-me, observando cada passo meu. Pronto para apontar o dedo na minha cara, julgar-me, dar risada dos meus erros e fracassos. Minhas pernas se apressaram. Com a velocidade que obtive não vi um buraco na calçada mal feita e caí. Sangue escorria pelos meus joelhos, braços e mãos. Assustada, tratei de levantar apressadamente e correr para casa.
      Estava tudo escuro. Por eu morar sozinha não tinha ninguém para me esperar. Acendi a luz do corredor principal e fui até o banheiro dar um jeito nesses ferimentos. Sentei na privada e limpei-os, porém quanto mais os limpava mais sangue saia. Enfiei os joelhos na água corrente e logo esta se tornou vermelha escura. Logo depois, o sangue cessara. Soltei um suspiro de alívio.
      - Não tão cedo. - ouvi um sussurro ao pé da minha orelha, rouca e maldosa, parecida com a da figura sinistra. O medo me preenchera por completo.
      Olhei pros meus joelhos e um líquido preto e sórdido começara a escorrer no lugar do sangue. O que é isso? Pensei comigo mesma. O pavor me invadira.
      Uma risada ecoou pelo banheiro. Alguém estava se divertindo com o meu desespero, mas era comum na minha vida e de muitos outros. Pessoas são cruéis, dão risada das desgraças dos outros, sempre felizes com pessoas que estão em situações inferiores a sua própria.
      Minha visão começou a ficar embaçada. Não sentia mais meus membros e não conseguia distinguir mais a realidade. Uma forte sensação péssima começou a dominar meu corpo. Meu cérebro não raciocinava normalmente. Não demorou muito, logo senti o chão abaixo de mim. A realidade me escapara.
      A sensação ruim ainda não deixara meu corpo, mas, pelo menos, meu cérebro voltara ao normal. Levantei-me do chão, perguntando-me a todo instante o que havia acontecido. Sentei na privada e levantei minha cabeça, fazendo assim a sensação me deixar. Em poucos minutos tudo voltara ao normal. Olhei para os meus joelhos e os ferimentos já estavam entrando em processos de cicatrização.
      Sai de lá e fui a cozinha, meu estômago berrava pedindo comida. Enquanto preparava tudo, liguei a pequena TV no canal principal de noticiário. Um grande acidente ocorrera, um corpo foi queimado por completo, a única parte que sobrara  foi o rosto.
      - Que tragédia. Que Deus abençoe a família e amigos. - disse para o silêncio.
      Assim que terminei de comer, escovei meus dentes e fui pra cama.
      Ao desligar a luz, senti que não estava sozinha no quarto. Um par de olhos observava cada respiração minha. Tentava a todo momento me convencer de que era besteira minha e coisa da minha cabeça. Fechei os olhos e permiti que o nada me consumisse. Senti dedos tocarem meu rosto, o que me fez gritar de medo e ligar as pressas o abajur ao lado da cama. Não havia ninguém no quarto, tudo vazio e silencioso - a não ser pelo fato de estar totalmente ofegante e o quarto estar ecoando o mesmo.
      - Quem está ai? - disse com a voz tremula - Tem alguém ai?
      Depois de tanto esperar alguém aparecer e quase ter um ataque cardíaco, finalmente estava calma. Isso foi assustador, pensei comigo mesma.
      O sono me pegara. Deixei a luz acesa, com medo de apaga-la. Estava quase dormindo e uma risada fria e cruel ecoou no fundo dos meus ouvidos. Estava cansa o suficiente para não abrir os olhos.

      Gritos de diversão, altas risadas, palavras desprovidas de inteligência, palavrões. Não tinha mínima consciência do que estava acontecendo de fato.
      Meus amigos estavam comigo. Um lugar apertado e fechado, as janelas estavam com pequenas frestas abertas. Concluí que, talvez, estivesse dentro de um carro. Olhei pro lado e vi um amigo com uma garrafa de vodca na mão. Olhei pro outro lado e vi uma amiga com outra garrafa na mão. Meu amigo no comando do carro estava com uma garrafa de cerveja e nas minhas uma de tequila.
      Bebíamos e gritávamos. Isso não nos cansava. No rádio do carro a voz do Axel Rose gritava, o que me deixava surda aos poucos. Nossa cantoria desafinada estragava a música.
      - Hei gente. Saca só. - disse gritando meu amigo motorista, chamado a atenção de todo mundo. Logo em seguida tirou as mãos do volante e virou a garrafa na boca, mais derrubando em si mesmo do que bebendo.
      O carro começou a ziguezaguear pela estrada. Altas risadas foram ouvidas.
      - Acho... que... vamos... bater... em algum... lugar. - disse, mal conseguindo pronunciar tais palavras de tanto que dava risada.
      Uma figura surgira no nosso caminho. Toda preta, mal dava para ver o rosto. O motorista logo colocou suas mãos no volante e desviou do que seja lá o que era aquilo.
      Minha cabeça se transformou num ioiô, ia para frente e depois voltava para trás. Uma forte dor atingiu meu corpo, principalmente no pescoço e cabeça. Outra dentro da cabeça tomou conta de mim.
      Não durou muito, a dor era demasiada, logo se apoderou de mim. E, com isso, perdi a consciência.
      Voltava a mim aos poucos. Abri os olhos lentamente. O silêncio berrava no ambiente. Uma enorme árvore estava na minha frente. Ao olhar pro lado vi uma silhueta familiar parada a poucos metros de onde estava. Já a havia visto, mas onde? A risada maligna e totalmente sem misericórdia foi feita por ele. Logo a silhueta sumiu entre corvos e folhas pretas.
      Um carro parou e um casal saíra. A mulher parou a minha janela, viu-me acordada e sua expressão viveu a preocupação e o desespero.
      - Aguente! Chamaremos ajuda. - disse apressadamente e logo saiu com o celular na mão.
      Minha audição ficara mais aguçada. Ouvia um barulho calmo. Gotas caindo em algum lugar. Aquele som me deu paz. Sentia que logo as coisas acabariam. Fechei meus olhos e ouvi um barulho alto, seguido de um grito de susto. Uma dor pelo meu corpo ameaçara me dominar. Não diminuía, só aumentava. Abri meus olhos e uma visão de horror me atingira. O carro estava sendo devorado pelas chamas. Meu corpo sendo decomposto comigo viva. Meus amigos morrendo. Aqueles que tanto amo.
      Não conseguia sair do carro. Depois de tanto lutar, logo desisti. Sabendo que qualquer tentativa seria falha e vã.
      - Eu disse que seus amados seriam os próximos. Foi ótimo ter os acompanhado. Sua morte foi só o começo do seu sofrimento. - disse a voz do senhor da morte.
     
      - Uma mulher foi encontrada queimada em seu quarto nesta manhã. Policiais não sabem como a morte aconteceu, mas suspeitam de um assassino em série. Outras três vítimas e o carro de uma delas foram encontradas no mesmo estado.

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